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          Gostaria de iniciar esse percurso de uma forma linear, falar das coisas que me afetam e refletem no meu trabalho e na minha caminhada pela existência. Quando minha mãe estava grávida de mim, a vila rural onde eles viviam, virou uma represa. O Rio Iguaçu tomou conta e eles tiveram que formar uma outra vila, a Nova Concórdia.  Alguns moradores se mudaram para esta nova vila, outros foram embora. Foi lá na Nova Concórdia que eu nasci e vivi até quase meus quinze anos.

         Vivia neste universo de poucas casas, uma igreja, um campo de futebol e uma bodega. Não tive pré-escola e fui direto para a primeira série. Estudei em uma sala multisseriada, onde havia apenas uma professora para todas as séries e quem terminava primeiro a lição, ajudava o colega. Ajudávamos a fazer a merenda e também a limpar a escola. Me sentia uma pequena professora ao lado da grande professora Edith, que sempre admirei. Ela me ensinou não só a ler, mas  a olhar o mundo com inquietação.  

         Desde cedo peguei gosto pela leitura que me transportava para outros mundos.  Meu livro de infância preferido era: “Marcelo, Martelo, Marmelo”, de Ruth Rocha. Aliás, me sentia como o personagem, questionando a ordem das coisas no mundo e querendo saber mais sobre ele. Aos quinze anos, fomos morar em Cruz Machado, uma cidade de vinte mil habitantes, próximo a vila. Sonhava em fazer um intercâmbio para outro país e conhecer cidades enquanto estudava, jogava vôlei e vendia cosméticos e lingerie para pagar algumas das minhas despejas. Escrevia diários e contos. Imaginava histórias, personagens e mundos novos. 

           

EXPERIÊNCIA - NARRATIVA - MOVIMENTO

 

            O primeiro filme que vi no cinema foi “Guerra de Canudos” aos dezessete anos. Como estava acostumada com uma TV pequena, foi a primeira vez que tive uma outra impressão sobre aquelas imagens. Lembro de ter prestado atenção ao corte que era bastante invisível. Logo depois deste primeiro filme no cinema sempre tentava perceber onde estava o corte. Não sei porque isso me chamou atenção. 

            Na hora de escolher uma faculdade, pensei em arquitetura ou jornalismo e acabei me decidindo por jornalismo porque gostava de escrever. Logo nos dois primeiros anos me dei conta que gostava geralmente de disciplinas que os alunos não gostavam – filosofia e sociologia e não era aquele tipo de texto jornalístico que eu queria escrever. Continuei o curso porque não era simples trocar de faculdade para mim naquela época. Nos dois primeiros anos estudava a noite e de dia era secretaria em um escritório de construção civil no Centro Cívico. No terceiro ano da faculdade fui trabalhar na comunicação do Festival de Teatro de Curitiba e, acompanhando dramaturgos, diretores e atores, comecei a pensar que queria trabalhar em algo que me sentisse muito feliz. Olhei o meu currículo e tinha feito vários cursos de extensão em cinema. Descobri o roteiro cinematográfico e comecei a ler tudo sobre o tema e até ensaiar a escrever roteiros sem saber direito o que era um.

              Fui trabalhar em uma produtora de conteúdo como roteirista e em 2004 comecei a procurar uma bolsa de estudos para estudar roteiro fora do país e ganhei uma bolsa para estudar documentário na ESCAC, adjunta da Universidade Barcelona. Decidi largar o meu emprego e ir. Passei sete meses com muitos colegas latino-americanos em Terrassa, povoado ao lado de Barcelona. Voltei e 2006 gravei meu primeiro documentário “de tempos em tempos”, um retorno ao lugar onde nasci. Depois vieram outros documentários, os quais roteirizei, dirigi e produzi e, outras histórias, minhas e dos filmes. 

            De 2009 a 2012 participei de um núcleo de dramaturgia SESI paraná, escrevendo peças de teatro, que muito me ajudaram a voltar a retomar as histórias que eu queria contar.

                Em 2012, comecei a escrever o argumento do filme “A mesma parte de um homem” e em 2013 ingressei em um mestrado em Comunicação e Linguagem. Me interessava pesquisar a arqueologia do roteiro e pensar por onde passava a questão do poético no roteiro cinematográfico? Se era possível a poesia nascer ainda no processo de roteirização? O resultado da dissertação virou um livro, “A construção do poético no roteiro cinematográfico”. Em 2013, comecei a dar aula em pós-graduações, cursos e também prestar consultoria para roteiros enquanto desenvolvia e batalha pelos meus próprios projetos.

               Em 2016 e 2017, lancei dois filmes respectivamente "Você ainda não está morta", um curta de ficção sobre uma mulher que está em um período confuso da vida e "O que nos ollha", um longa-metragem documentário que gravo na minha cidade em um momento que estava passando por uma separação de um relacionamento. Ambos os filmes se conectam e acabo a partir destes filmes retomando a narrativas pessoais com mais força. 

            “A mesma parte de um homem” é o meu primeiro longa de ficção e me conecta novamente ao universo rural, onde passei minha infância e adolescência e para além disso é também um ritual de passagem para um novo período - profissional e pessoal. O filme fala de mulheres, mulheres que vi e observei desde a infância e também de um universo rural onde os códigos sociais são ainda mais densos. Ao falar sobre mulheres posso não só revisitar a minha história como posso pensar reflexões a respeito deste tema.

          Me interessa no cinema pensar pessoas, corpos em desdobramento com suas presenças, memórias, o desejo sexual da mulher, os papéis e também a auto-ficção familiar. A casa também acaba por aparecer como uma espécie de corpo que expressa o mundo dos personagens e seus anseios. Me interessa também pensar o som como ação narrativa que estabelece uma ação que não é vista e também pensar o som poético, que pode proporcionar experiências do sentir e estar no mundo. 

         Encontrei no cinema, um lugar de experiências - de experimentar temas próprios, de conhecer novas pessoas, novos lugares, fazer simulações e continuar em movimento. Também venho buscando há alguns anos um movimento poético que não esteja apenas nos meus filmes, mas na minha existência, no meu cotidiano e na minha maneira de agir e existir com as pessoas. Poetas, escritores, roteiristas e diretores coletam coisas do mundo para reorganizarem em um filme, em uma simulação. Que possamos também com os elementos dados, reorganizar nosso universo, nosso sentir e proporcionar novas sensações e imagens. 

FILMOGRAFIA - DIRETORA


- A mesma parte de um homem, 2021, Brasil 100’, Ficção, 2k


- O que nos olha, 2017, Brasil, 71’, Documentário, HD

- Você ainda não está morta, 2016, Brasil, 22’, Ficção, HD

- Notícias da Rainha, 2013, Brasil, 19’, Documentário, HD

- Um Filme para Dirceu, 2012, Brasil, 90’, Documentário, HD

- Abaixo do Céu, 2009, Brasil, 52’, Documentário, HD

- De tempos em tempos, 2007, Brasil, 22’, Documentário.